Eu tinha uma luz. Ela andava arrastando os pés e cheirava a café com bolo de fubá. Minha luz apertava a gente, sempre queria saber das coisas e se perdia as vezes. As luzes se perdem, de vez em quando.
Minha luz falava bonito, tinha um olhar que as vezes se perdia, aí ela balançava a cabeça - bem devagar - como quem embala uma criança que dorme no fundo de memórias antigas.
Minha luz queria ir pra casa, queria ver Anníbal, perguntava quem a gente era, mas no fundo ela sabia. Sabia de tudo. Sempre soube das coisas.
No fim, minha luz parecia carregar um peso muito grande nos ombros, mas olhava leve. Talvez o peso fosse da caminhada muito longa, porque ela era uma criança que havia nascido há muito, muito tempo.
O olhar leve era quase um moleque danado preso, correndo ali, naquelas bolas brilhantes. Acho que é porque ela já tinha visto muita criança correndo na vida.
Tinha "a beleza das flores quase sem perfume". Agora ela é só saudade. Uma pequenina flor, lá no céu.
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E são essas as minhas lembranças mais ternas, que surgem com uma ajudinha das músicas que meu pai tocava e com uns versos do Manuel Bandeira.
Publicado em 22 de setembro de 2008 às 18:00 por marina dias