Igual a tudo na vida

Reluzente.

Seis e quinze em ponto. Levanta sem abrir os olhos e caminha até o banheiro. Pega a calça jeans e o sutiã, leva pro quarto. Seis e dezesseis. Cinco minutos. Só mais cinco. O útero fica se contorcendo e a dor vara o corpo e chega até as costas. E dorme. Seis e vinte e três acende a luz do celular para ver as horas. Se levanta, veste a calça, o sutiã, qualquer camiseta e está frio. Blusa de lã laranja jogada no armário e é ela, visto que o tênis laranja de bolinha já estava por perto. Pegou uma meia e o Caio Fernando. Vestiu a meia, colocou o Caio na mochila, tomou dois copos grandes de café com leite e um Ponstan, para ver se a dor parava.
E saiu. Parecia um daqueles dias em que ia para algum lugar diferente fazer algo inusitado, mas não. Fazia o mesmo ritual todos os dias há quase onze anos. Entrou, subiu os quatro lances de escada - mas não olhou através do vidro azul. Entrou pela porta verde e viu alguém que não via há tempos nessa hora da manhã. Ficou feliz, se preocupou e sem querer soltou um "Que merda é esta?". Conversou um pouco e se sentou na cadeira atrás da mesinha branca com o número 38 estampado em preto.
Mergulhou nos Morangos Mofados. Em quatorze dias havia lido só até a metade. Agora já estava no meio da segunda parte. E ficou lá, até que o professor de física - um bonitão de uns trinta e tantos anos - interrompeu, dizendo que precisava ler mais. Então veio a oração de todas as manhãs. Nessas horas pensava nos pais, irmãos, tios, tias, primos e primas que moravam longe e pedia alguma força pra ir em frente. Se lembrou do Dufayel, amigo da Amelie, quando diz "Então minha querida Amelie, você não tem ossos de vidro. Pode suportar os baques da vida. Se deixar passar esta chance, com o tempo seu coração ficará tão seco e quebradiço quanto meu esqueleto. Então vá em frente, pelo amor de Deus."
Voltou pro Caio, naquela parte que ele diz que "a espera é tão reluzente que já é certeza".
De novo o professor. Queria saber a página. 38, setor 1201. Marcou a página cento e dez e voltou para a trinta e oito. Encheu a trinta e oito e também a trinta e nove com contas. E é igual a vêa linha menos vêbê linha sobre vêbê menos vêa, sendo que vêa linha e vêbê linha correspondem à velocidade depois da colisão. E se as massas dos corpos forem iguais e a colisão for elástica, o valor da velocidade dos corpos após a colisão é trocado: vêa linha passa a ser igual a vêbê e vice-versa. E o sono chegou. Uma hora e quarenta minutos e as linhas começam a se confundir. A espera é tão vêa linha que reluzente vêbê é igual a ZzzZZZZZZzzzZZZz. E o Ponstan fez efeito.Voltou pro Caio enquanto ninguém se manifestava após o sinal. Arte. Arte do sono, só se for. Renascimento, Neoclassicismo, Barroco, Tropicália e até que enfim. Comeu alguma coisa, tentou ler, mas dormiu no sofá cinza com todo mundo conversando em volta e querendo saber o que estava acontecendo. Simplesmente achava absurda essa mania de "o que está acontecendo" ou "o que é que você tem". Não tinha nada. Só cólica e sono, só isso. Ninguém precisava fazer silêncio, se importar ou dar atenção, era simples assim.
E voltou pro Caio. Quase no fim e a professora inteligente veio ver o que era e também quis saber se já tinha começado as orações adjetivas. Caio, de novo. E foi assim, até meio dia e meia, quando bateu o sinal, o último. Estava na última página. Todo mundo se levantou, a professora passou e não disse nada - segundos depois de dizer a um aluno que se ele estivesse com números à sua frente poderia se retirar, uma vez que sem o perfeito domínio da língua ele jamais poderia se expressar, o que é uma grande verdade. E terminou bem mais leve. Guardou suas coisas e desceu as escadas cantando bem baixinho "Let me take you down 'cause I'm going to Strawberry Fields nothing is real and nothing to get hung about Strawberry Fields Forever..."

Publicado em 22 de julho de 2008 às 13:38 por marina dias

Comentários

    • Mulheres e suas cólicas... creio que homens jamais entenderão isso.
    • por maven
    • 22.Jul.2008 às 13:53 - Permalink - Reportar
    maven
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